junto
Era como se anestesiava pra tentar sobreviver. Não existe dor quando eu não consigo sentir. Quando meu sangue encontra atalhos pra não passar por onde arde. Não existe falta quando eu retiro todo o ar que ali existe para apenas ilustrar um vazio esquecido, congelado. Batendo queixo mesmo com mil cobertas por cima da camada mais superficial da pele, entre arrepios que surgem em intervalos variáveis de tempo. “Não sei mais o que fazer da vida”, falava para si mesmo todos os dias ao levantar. E era assim, tentando responder perguntas que deixava passar o que sentia. Como se não tivesse motivos para permanecer em qualquer lugar.
Tinha em mente que ali dava para escutar melhor o barulho da chuva, enquanto respirava ofegante por um pulmão seco, num tempo frio, com palavras frias. E em câmera lenta registrava os passos como os olhos de um gato acoado tentando se sentir seguro de trovões atrás de um móvel. E espera passar o corte de cenas para respirar aliviado. Começa baixinho e depois ensurdece entre sete notas musicais a composição que havia sonhado semanas antes da chuva. Meu mundo agora é outro e você não precisa ficar acordado até tarde para viver um final feliz. E quem é que precisa abastecer o corpo que já não responde ordens?
por gabriella alexandre
Added at 10:33am — 0 notes
vestuário
Amor como aquele tipo de roupa que estava no fundo do armário, gostava tanto em certa época e deixei lá guardado pra lembrar que existe. Não uso mais porque não cai bem nesses dias de sol. Às vezes vejo amontoada no meio de outros amores, mas não me desfaço porque sei que um dia vai me fazer falta.
Amor do tipo “não me esqueça nunca”. Você senta na cama e sente que precisa mudar algo e recolhe tudo que não usa. Até aquela peça que você um dia disse amar, bota numa sacola e deixa no maleiro até perceber que o inverno chegou e faz muito frio a noite.
Você vai olhar nas suas coisas e encontra aquele agasalho que te deixa protegida, esse tempo todo tão longe. É só passar uma água com amaciante e fica tudo bem. É velho mas é feito de amor, que você deseja que nunca mais saia do seu corpo, que você faz de segunda pele mas que precisa manter distante por um período entre estações.
Amor que você nem se importa por estar amarrotado porque passa naturalmente com o calor do seu corpo. Amor pra deixar guardado até se desfazer, até que a fibra do tecido desmanche e você pacientemente pegue uma agulha com linha pra remendar. Amor disfarçado de vestimenta, amor disfarçado.
por gabriella alexandre
Added at 6:34pm — 0 notes
❝mas eu já desperdicei meu tempo. esse tempo todo tentando me encaixar. sorte do vento, que se desloca assim despreocupado e fica mais forte sob pressão. depois que passa vira brisa.
— tradução - gabriella alexandre
Added at 7:18am — 0 notes
❝já disse que essa vontade de arrancar sua pele não vai me segurar por muito tempo. já disse que pra minha subsistência eu preciso da sua carne viva.
— bad things - gabriella alexandre
Added at 7:16am — 0 notes
❝prometa cuidar da minha aflição. ou até mesmo desse coração reduzido a pó. sopra na direção do vento.
— solúvel - gabriella alexandre
Added at 7:12am — 0 notes
ele faz cinema
ele faz cenas com palitos dançantes, roteiro em folhas de papel fora de ordem, sequências em dias chuvosos. ele faz curtas em fins de semana, documentários em cidades do interior. busca inspiração enquanto espera o sinal abrir. era como se precisasse de um pouco de cada lugar do mundo pra colocar numa animação pretensiosa. e me faz perder toda a concentração. deve ser essa barba mal feita ou esses olhos grandes, daquele tipo de verde que deixava os meus assim paralisados em sua direção.
por gabriella alexandre
Added at 10:47am — 1 note
saída
você diz que não há nada de errado com o meu rosto mas essa não é bem uma leitura correta pra quem descobriu como me destruir. só tenho que aprender a trancar a porta dando duas voltas com a chave. depois disso deixar essa chave debaixo da sua porta. e sair por aí até que eu consiga respirar sem intervalos entre suspiros de dor.
por gabriella alexandre
Added at 10:34am — 0 notes
❝você tem suas paixões e eu tenho as minhas, mas a gente sempre se apaixona quando se vê.
Added at 7:50am — 0 notes
bad things
nem era sono. nem é choro. nem é soluço. é só meu corpo trêmulo como se estivesse nevando lá fora, sentada no sofá abraçando os joelhos e coberta por um corpo arrepiado. e tudo o que eu quero é um pouco do seu corpo.
sinto que era pra ter cochilado mas perdi o sono com uma distração qualquer. você sabe o quanto me distraio com pouco. e o quanto eu queria que minha ansiedade não te machucasse mais. ainda faltam alguns parágrafos pra terminar esses textos que tenho que entregar até amanhã. mas são só leads automáticos que se perdem entre esses livros empoeirados que ainda tenho que ler. mas eu nem sei tantas palavras assim mesmo.
eu sei que é culpa da aridez do tempo. nem é neve, nem gelo. nunca soube lidar com o tempo. qualquer tempo. pra quê esse frio todo se tá um sol escaldante lá fora? não quero saber o que a previsão anunciou, meu organismo não é assim tão previsível. se agasalha porque seus ossos parecem frágeis. seca esses olhos encharcados. você supõe que deva esfriar logo, mas prepara sua pele pra receber radiação. como se quisesse pedir ajuda ou calor humano. já disse que essa vontade de arrancar sua pele não vai me segurar por muito tempo. já disse que pra minha subsistência eu preciso da sua carne viva.
por gabriella alexandre
Added at 5:23pm — 0 notes
solúvel
de certa forma até gostei desse silêncio. encostei ali na parede e fiquei ouvindo o telefone tocar de longe. agora já não tinha silêncio. você acorda com cara de cansado e traz da rua suas calças imundas e sapatos cheios de areia. deita com a cabeça longe e apaga assim que fecha os olhos.
e a gente conversa só pra jogar conversa fora. e me fala dessa vontade de não fazer nada no próximo mês. sono pelo resto do dia. como se não tivesse preocupações. entre um suspiro ou bocejo incontrolável, deixa sua presença ali quieta pra eu ficar observando. mesmo sem poder estar perto.
de certa forma até gostei do seu barulho. atendi a ligação como se nunca na vida tivesse ouvido sua voz. saiu de roupa limpa. pra voltar não sei quando. e te ver chegar me dá uma sensação de epifania. prometa cuidar da minha aflição. ou até mesmo desse coração reduzido a pó. sopra na direção do vento.
por gabriella alexandre
Added at 9:02am — 0 notes
sentido
e vai mexer nessa ferida. tentar provar explicações. e vai tentar passar os dias com ferro a vapor nas suas costas. ouvir melodias de poluição sonora. vai tentar esquecer esses ruídos ecoando da sua boca e que completam minha falta de palavras. meu silêncio que grita por dentro.
e me falta o ar com esse seu medo inconsciente. desmonto e jogo fora essas frases prontas. não é tão simples meu suplício, não sou simples pra ficar sem vontades fúteis. mas você contorna a situação e se complica, me complica, me destrata, te mato em uma sílaba. vá.
e você suga minha alma, eu escondo suas fotos e rabisco o seu rosto. eu rasgo essas fotos, afirmo que quero entender o que se passa, mas sempre me engasgo com minhas próprias lágrimas, esse sal que me provoca hipertensão.
me despeço mais uma vez, me despeço sem adeus, me despeço de você mas por dentro digo até logo. e nem sei que caminho seguir. suporto por conveniência. até parar de ficar tonta. até outra hora, até outra vida. pra esse encosto nunca mais fazer parte de mim. pra nunca mais ouvir nada da sua boca. pra nunca mais procurar o que dizer.
por gabriella alexandre
Added at 9:26am — 0 notes
ponto médio
mudei de ideia com apenas dois goles, subi e desci as escadas e sentei de novo. não sei como ficar sem essas certezas, só aqui escrevendo mensagens que eu nunca vou enviar. ou dizer. não sei como ficar constante e decidir em cinco minutos os próximos meses. nem se preciso estar lúcida. não sei se preciso de garantias. se amanhã meu futuro será do pretérito. se amanhã poderei voltar atrás. ou poderia. verbo estúpido que depende do seu ‘se’.
esses soluços te avisam quando eu me decidir. vou contar os degraus um a um pra passar o tempo até chegar no seu andar. bater na porta e dar meia volta. respiro e pronto. decido continuar. e assim por dois segundos até ter certeza de que é você mesmo. até eu te tocar. e sussurrar uma palavra ou outra de saudade. pegar na sua mão e sentir o porquê de tudo estar acontecendo com esse descontrole.
até eu falar tudo que eu achei que você nunca iria ouvir. estragar sua linha de pensamento ao lembrar de pequenas coisas. e cantar de maneira esfuziante. de sentar ao seu lado sem pensar que está anoitecendo. sem depender do tempo. de chorar que nem criança com um filme triste. sentar na mesa e te ter do outro lado olhando pra mim.
não vi pedaços no chão. não ouvi o despertador tocar de manhã, ou você se levantar pra tomar água. posso aquecer rapidamente esse café e me trocar depressa. até confundir sua vida com a minha. até, enfim, eu me tocar de que não era a indecisão que doía, era o desespero de você não estar mais ali.
por gabriella alexandre
Added at 1:04pm — 0 notes
tradução
e entrou um vento forte pela porta. enquanto eu escrevia numa folha branca a lista de compras do mercado. na verdade eu ligava o piloto automático assim que acordava. cumprimentava e respondia bom dias. fazia minhas obrigações e escutava superficialmente. aguardava atendimento em filas e pronunciava uma palavra ou outra de consolo. sorria hora ou outra pra disfarçar o caos. chegava em casa com a cabeça pesada e o sono iminente. faltava tempo e sobravam horas. e eu nunca me contentava com nada.
mas a novidade é que os preços aumentaram. tiros foram disparados. chuvas caíram. florestas foram desmatadas. e eu só queria saber pra onde aquele vento ia. enquanto fingia me preocupar com as compras, o mundo rodava e as pessoas ali dispersas, fingiam se importar com suas vidas. e elas nunca entenderiam o que eu queria falar ao mundo.
o vento já passou. os preços já subiram. a madeira já foi retirada e os tiros já mataram alguém. e eu parava de contar as vezes que mandava os outros me deixarem “em paz”. que bela ironia. como seria possível ficar em paz com toda aquela perturbação dentro de mim? mas eu já desperdicei meu tempo. esse tempo todo tentando me encaixar. sorte do vento, que se desloca assim despreocupado e fica mais forte sob pressão. depois que passa vira brisa.
por gabriella alexandre
Added at 8:54am — 0 notes
matéria
é um simples incômodo. inquieto. chega e senta bem perto. parece que a febre passou. e distribui sua felicidade gratuita. como se atreve a jogar na frente de todos essa alegria vulgar? um pouco de respeito, por favor.
e deixa essas marcas de dedos quentes em meu rosto frio. derretia até calçadas asfaltadas e corações congelados. não vamos medir temperaturas. deixo meu corpo em banho maria até você chegar. a gente conversa através do vidro embaçado. como se atreve a evaporar tão rápido? espere pelo menos eu me condensar.
confesso que preciso de alegria vendida. prometo cuidar das suas mudanças de estado. alterações latentes. confesso que dependo de seu desatino. confesso que preciso de choque térmico em noites frias. de companhia. até que amanheça neblina.
por gabriella alexandre
Added at 8:51am — Notes
legumes
misturando essas letras numa sopa consistente. mexe bem pra não empelotar e tempere com seu sinismo. sopa de mágoas. colecionava no alto da prateleira seus sabores intactos. embrulhei num papel alumínio os pacotes abertos, só não deixe espalhar pelo chão. misture com água. ferva bem e sirva-se como daquela vez.
- coma logo porque vai esfriar!
- minha boca ainda tá dormente.
não era assim tão divertido suplicar sua atenção. sabia que era invisível mas quem sabe se eu dissolvesse suas frases e formasse as frases que eu precisasse ouvir, poderia me anestesiar aos poucos.
- você sabe que um dia eu não volto.
- você sabe que isso eu sempre soube.
(voltou depois de 2 horas)
- eu tento parar. por você.
- pare de tentar e não volte mais.
(e foi)
os restos eu jogo fora. fecho aquela porta que você sempre se sentava perto pra poder ir embora mais rápido.
por gabriella alexandre
Added at 8:32am — Notes